A Tumba que habito

Cap. I - Velório

Quem diria que a senhora Dorothy, seria enterrada como indigente. Acho que ninguém na cidade esperava isso. Por sorte, uma boa alma, decidiu doar um pequeno caixão. Um bom caixão, madeira simples, de corte reto e com um bom acabamento. Claro, que não era tão bom quanto do Sr. Félix, aquele sim era um lindíssimo caixão, forro de seda, com intrincados entalhes na tampa, com detalhes em ouro. Mas, que me desculpe o termo, Dorothy era uma meretriz da sociedade e com uma última pá de terra, eu encobria suas histórias.

Agora só restava a lápide, no caso dela, uma cruz bem sem graça de madeira. Sendo sincero, acho que esse era um dia perfeito para enterros. Nublado, com vento fresco, ajudava muito na hora de cavar. A única parte triste era que nesse caso, deixou a cena ainda mais triste, pois ninguém compareceu no horário da sepultura, então bom, como o bom profissional que sou, usei meu terno limpo à toa.

O cemitério era um pouco grande para os padrões da cidade, se tinha algo naquela cidade que as pessoas gostavam mais do que rezar, era com toda a certeza o descanso eterno. Poderíamos facilmente enterrar o que? A cidade toda, no mínimo, duas vezes! Fora que ainda sim, possuía um pequeno bosque, onde diziam que jaziam antigas famílias de nobres.

Eu achava no mínimo estranho que qualquer rei fosse querer ser enterrado naquele fim de mundo, mas gente viva e rica eram estranhos mesmo. Além do bosque era possível ver uma pequena casinha, eu as vezes cochilava por lá. Naquelas maravilhosas tardes de verão e durante algumas de inverno. Vocês não fazem ideia de como um caixão pode ser quentinho e confortável.

Claro que antes de eu começar a trabalhar aqui, eu sempre fui visto como o magricela esquisito da escola. Raramente eu tinha paz dos outros, tidos como normais. O silêncio sempre me atraiu. Infelizmente no final do segundo colegial, minha querida avó, a qual me criou com muito carinho, adoeceu.

Câncer. Diziam os médicos.

Foi uma fase muito triste, pois parte do tratamento dela, eu ajudei a pagar com os pequenos bicos que conseguia. Mas ainda sim nunca foi o suficiente. Então sai da escola, para tentar mais dinheiro. Acredite, trabalhei de tudo que eu sabia na época. O que basicamente envolvia uma escala minúscula entre pouco esforço físico e quase nenhum mental.

Minhas opções realmente eram muito limitadas. Mas bem, quando ela faleceu no ano seguinte. Durante o enterro, o qual, eu gostaria de fazer uma observação, somente eu, o padre e o gato cheio de pulgas do antigo coveiro compareceram. Por algum motivo, mas acho que me falha a memória, eu poderia jurar que alguém nos observava à distância, o que realmente não seria algo improvável, visto que enterros atraiam certa atenção local.

Depois de pagar ao padre (e me conter de chutar o gato), o coveiro me ofereceu o emprego. Um jovem de dezoito anos solitário, esquisito, não muito inteligente, sem estudos e com dívidas do hospital? Por que não?

Então, pelos últimos quatro anos, tenho trabalhado por aqui. Às vezes o Pedro, o antigo coveiro, aparece para ver como estamos. E eu posso dizer que estou pegando o jeito para isso. As minhas covas são cavadas com muita precisão. Talvez o enterro mais difícil que eu tenha realizado, foi a senhora Alamos.

Imagine, ela queria ser enterrada com seu piano. Mas assim não é qualquer piano, estamos falando de um piano de cauda enorme. Daqueles que eu só via nas revistas. Mas parecia um carro, sendo sincero.

Naquela tarde eu não havia percebido, mas depois de terminar a enorme cova para o piano, eu me sentei um pouco para respirar. Mas aparentemente havia um homem me observando. Apoiado numa arvore ao fundo, ele estava vestido com um casaco preto, óculos escuros redondos e um chapéu circular enorme. Então ele se aproximou de mim e sem nenhuma cerimonia sentou-se ao meu lado. Eu não conseguia explicar, mas ele me transmitia uma enorme paz e na mesma intensidade, angústia. Suas mãos eram pálidas, com os dedos alongados e finos. Seu rosto parecia que estava empoeirado, eu poderia até mesmo dizer que aquilo não parecia pele.

” é uma bela cova garoto. Diria que é uma das melhores que eu já vi.” Disse o homem enquanto observava calmamente o horizonte. Observava, um pouco sem entender.

Cap. II - Lápide

Ele riu, bom, na verdade fez um barulho que mais parecia uma bexiga empoeirada se esvaziando “Você deve estar se perguntando quem eu sou. E pra ser bem franco, eu posso dizer apenas que sou, assim como você, um apreciador deste local.

Ah sim…

A calma e o silencio. São encantadores não é mesmo?”

“Eu diria que sim… Senhor”

“E ainda tem bons modos para um jovem. Fascinante.

Me diga mortal, o que você acha de trabalhar para mim?

Eu realmente preciso de um assistente”

“Mas… Senhor. Me desculpe se eu pareço mal-educado, mas eu não sei ainda quem é você. E… bem…”Senti minhas bochechas corando “Eu não sei muito mais do que cavar túmulos e enterrar os mortos… Não tenho estudo e nem sou a pessoa mais inteligente que você pode encontrar”

Ele riu novamente, aquele barulho realmente era desesperador.

“Está aí algo que aprecio. Algo raro entre os vivos. Se apenas soubessem que desta vida só levam a própria alma, talvez passassem mais tempo investindo nela, ao invés de coisas tão supérfluas.

Eu sou aquele que você conhece todos os dias, aquele que está sempre ao seu lado.

Eu sou a Morte.”

“Bom, eu sou um coveiro”

Apos alguns minutos de silencio, eu decidi continuar.

“Espera, agora que caiu a ficha, assistente?”

“Exatamente”

“Mas… o que um assistente faz?”

“Nada muito além do que você já faz, preparar e me enviar os corpos, passando-os dessa vida para a próxima”

“Mas… isso não é algo que a sua foice faz?

“Uh… não? isso é algo que vocês fazem, ela apenas mata, corta e fatia, pessoas e legumes.”

Ela se levantou e apontou para uma das covas

“O que você faz, é exumar o corpo, torna-lo pronto para passar desta vida, para bem, a falta dela. Assim eu recebo em minha casa, tão prático quanto esperar uma encomenda”

“Certo” Ri um pouco desconfortável, “Mas por que eu?”

“Bom, você já está a muito tempo nisto, tanto que se tornou tão apático a ponto de não perceber algo.” Ele estendeu a mão para mim “Me acompanhe”

E fomos andando por um tempo, para as partes mais afastadas do cemitério. Dentre os túmulos, até chegarmos a uma pequena lápide, bastante empoeirada e muito desgastada com o tempo. O mais curioso é que não lembro de ter cavado essa aí e o nome estava apagado.

“Então…?”

Olhei para Ela, um pouco confuso.

“Está, é a sua cama. Eu não visito os mortais para lhes dar o desprazer de minha amarga presença e minha conversa surrealista. Se você me está me vendo, é por que você está morto”

“Então… como eu tenho cavado tudo isso? Como você explica todos esses corpos que venho enterrando, trocando suas roupas e inclusive aquele buraco gigantesco para o piano”

“Desde quando você se tornou tão preso a sua vida, fugindo dela mesma, você não percebeu, mas com cada sepultura, você também fazia a sua. Cada corpo, era, talvez por demérito de ironia, tão seu quanto meu.” Ele tocou em meu ombro “Você não passa de um escravo de si mesmo, de sua realidade, pra mim, você é tão vivo quanto eu. Uma figura inexistente e defunta.

E mesmo após seu óbito, não menos ordinário, você ainda sim continua seus afazeres, como um fantasma preso a um sentimento do passado.

E esta, é a tumba em que você habita”

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados *

Postar Comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.