Dissidente

Enquanto cruzava os corredores vazios, Giff tentava entender como havia chegado a esse ponto. Duas décadas de lealdade ao sultão, duas décadas de suor e sangue. Duas décadas de batalhas em que seu machado cantou a glória de seu soberano.

Ele nasceu propriedade do sultão Ramaya, e após sua morte foi passado ao seu filho, Rannish. Ainda pequeno, Giff aprendeu a usar armas. Uma das vantagens de ser propriedade de um nobre era ter acesso a um arsenal extremamente variado. Espadas, lanças e arcos passaram por suas mãos, mas nenhuma jamais se encaixou tão bem quanto o machado longo.

Ele nunca hesitou em usar seu talento em nome de seu mestre. Sua arma dançava no campo de batalha, e sua música sempre teve o ritmo um passo acima dos outros. Ele era um dos primeiros nas investidas. Não era incomum, quando sua unidade tinha que ser dividida, um grupo consistir dele e apenas mais um ou dois soldados, e os outros brigarem para estar no seu grupo.

Giff chegou a comandar sua própria unidade. Como ele, muitos eram mestiços, e todos eram escravos. Uma década antes, eles lutaram no Dia de Sangue. Foi uma das poucas vezes em que ele hesitou em seguir uma ordem. Os manifestantes estavam desarmados em frente ao palácio. Ele gostaria de poder dizer que ele fez o possível antes de usar violência. O primeiro golpe não foi seu; outro soldado teve essa inglória. Mas ele contribuiu para aquele massacre, e muito sangue escorreu em suas mãos naquele dia. A revolução que seguiu foi esmagada com punho de ferro, greves e protestos repreendidos com braço forte e aço afiado.

Em retrospecto, Sahafar nunca teve muito gosto pelos vários povos que assimilou em sua expansão. Após esse dia, sussurros circulavam de que o povo do deserto tinha sido mutilado por estrangeiros no palácio. Foi nos anos seguintes que os sangue-puros da unidade de Giff saíram, com transferências ou promoções. Ele teve menor participação nos protestos seguintes, quando soldados sahafarianos foram mais usados contra civis. As poucas missões que sua unidade fazia eram de alto risco e, em muitas delas, ele perdeu bons homens. Ainda assim ele tinha sorte, ao contrário de outras unidades de mestiços que não tinham sobrevivido. Andando pelas ruas, cada dia mais ele sentia olhos sahafarianos em sua nuca.

Ele não deveria ter ficado surpreso quando lhe ofereceram uma posição na guilda dos assassinos. Fora dos olhos do povo, ele passou a operar nas sombras, abandonando as longas armas de haste em favor de facas, ágeis e fáceis de esconder.

Vozes ecoaram ao fim do corredor. Giff se encolheu em uma alcova e esperou os guardas passarem. Ele sentia falta dos dias no campo de batalha, quando ele cortaria os vigias ao meio com seu machado e passaria por cima de seus corpos, com o conforto e a proteção de uma armadura de aço. Agora todo metal era um peso, um fardo para quem andava na surdina, e ele tinha que levar o mínimo possível. Couro e pano eram sua segurança, protegendo mais sua identidade do que sua integridade física.

Quando a guerra contra os elfos explodiu, ele achou que poderia voltar ao campo de batalha, mas seu valor como assassino era maior. Soldados estavam morrendo em números alarmantes no fronte, e a cada dia os rebeldes se fortaleciam em Sahafar. Quando o sultão deixou a capital para liderar as tropas pessoalmente, assassinatos se tornaram mais necessários do que nunca.

Giff sempre obedeceu seu mestre cegamente. Mesmo quando sua unidade foi mandada em missões suicidas, mesmo quando ele claramente era indesejado. O sultão sempre agiu para o bem de seu povo, e Giff respeitava isso.

Os sahafarianos tinham medo dos estrangeiros. Era por isso que, quando a escravidão foi abolida, os escravos militares foram a exceção. Rannish não podia soltar estrangeiros treinados para a guerra na rua. Por mais que esses estrangeiros tivessem vivido em Sahafar durante toda a vida. Por mais que eles tivessem se mostrado leais durante todo esse tempo.

Essa lealdade foi se erodindo à medida que, nos últimos tempos, os desejos do povo pareciam preocupar menos e menos o sultão. A situação era confusa. A guerra não tinha tocado seus solos e suas plantações, e nas épocas de colheita os campos ainda flanqueavam o rio com plantas maduras. As terras férteis sempre tinham sido poucas, e havia cada vez mais interesse em mineradores para suprir os materiais para a guerra. No entanto, as pessoas brigavam por terras plantáveis e, ainda assim, o povo não tinha comida.

Os trabalhadores culpavam Rannish, diziam que ele havia abandonado seu povo. Os sheiks pareciam ou evitar o assunto ou falar coisas tão complicadas que eram impossíveis de decifrar. Certa vez um deles disse que os escravos tinham sido prometidos liberdade, mas apenas ganharam um novo mestre, escravizados pela própria terra onde plantavam, presos por correntes de ouro. Giff não tinha a menor idéia do que isso significava.

Intelectuais acusavam a economia e a política. Ele odiava essas duas palavras. Elas eram como duas figuras encapuzadas, seus mantos encobrindo algo terrível e vasto demais para ser compreendido, algo que seu machado jamais seria capaz de cortar.

Quando Rannish deixou Saharaf para assumir o comando do exército, sua primeira esposa, Ninemia, assumiu o trono em sua ausência. Na prática, isso significava que quem estava em comando era o vizir Harkut. Havia pouco no qual todos concordassem nesses tempos, mas Harkut era quase unanimemente o homem mais odiado de Saharaf. Rumores diziam que ele era um feiticeiro que usava sua magia para escravizar as esposas do sultão, e através delas manipular Rannish para seus próprios fins. O sultão manteve o homem em sua corte por anos, alegando que ele era o único que era capaz de tratar o herdeiro ao trono, um garoto fraco e doente, que provavelmente teria morrido sem os encantamentos do vizir.

Giff não ficou nem um pouco surpreso quando recebeu a missão de matar Harkut. Uma equipe de assassinos e guerreiros se reuniu para isso, mas aquele alvo não foi como nenhum outro. Ele ainda sentia arrepios quando pensava naquela noite. Os feitiços do vizir pareciam entrar por seus olhos, seus ouvidos, até seus poros. Ele achou que seu corpo não estava mais obedecendo sua mente, apesar de não ter certeza se sua mente realmente queria continuar a missão.

Daquele anel maldito saíram as piores monstruosidades que qualquer um dos presentes já tinha visto, mas o que elas eram continuava a ser um ponto de discordância. Um nobre que os acompanhou descreveu areias e ventos tomando a sala e ameaçando soterrar o recinto. Um dos assassinos disse que viu as sombras de todos que ele tinha matado. Outra disse que o anel sugou de sua boca seu jantar, e depois seu almoço, e todas as refeições que ele já tinha comido, uma por uma. Giff viu apenas uma figura, deformada e demoníaca, mas era impossível não reconhecer a forma do sultão. A criatura sugava tudo ao seu redor, devorando o quarto e deixando apenas escuridão em seu lugar.

Anos de ódio saltaram à vida. As racionalizações e o condicionamento cederam à fúria que aquela imagem instigava. Seu machado estava em suas mãos e ele saltou sobre a imagem distorcida de seu mestre, enterrando a arma com toda a sua força no monstro. Quando recobrou os sentidos, ele estava sobre o corpo do vizir, sua faca enterrada no peito do cadáver. Sangue jorrava de Harkut por dezenas de cortes, e o assassino estava empapado dos ombros até os joelhos.

Quando os passos dos guardas fizeram a curva no corredor, Giff voltou a avançar em direção à porta. Ele levou quase uma semana para se recuperar, física e mentalmente. Ele era novamente um servo leal do sultão, que tinha apenas passado por um momento de dúvida. Até Yuna chegar.

Em quaisquer outras condições, ele teria matado a elfa. A guerra com os reinos élficos estava afundando Sahafar em greves e rebeliões, e qualquer elfo encontrado na rua teria sido linchado ou levado ao palácio para execução. Em retrospecto, ele devia ter matado ela; seria só mais uma casualidade na missão. Mas aquela figura desidratada, agarrando um cobertor na noite fria do deserto, quase parecia um dos seus próprios conterrâneos. Ele se aproximou das brasas, que já mal aqueciam qualquer coisa ao seu redor e ofereceu um gole do seu cantil. No escuro da noite ele mal conseguia ver as feições esguias e distorcidas de um elfo, e fora as orelhas longas, a figura parecia humana. Giff a levou para um local escondido, onde ela ficaria segura por um tempo, e lhe deu parte das suas rações.

“Porque você está fazendo isso?” a elfa perguntou, após comer parte do pão duro e ressecado. “Quer dizer, eu sou… eu não sou daqui.”

A verdade era que ele próprio não sabia. Muita coisa estava mudando nas areias de Sahafar. As dunas se moviam sob os seus pés e os ventos balançavam até os pilares de pedra.

“Mas de onde você vem as pessoas também precisam comer.”

A elfa sorriu. “Às vezes eu acho que as pessoas se esquecem disso.” Ela tomou mais um gole de água para ajudar a descer o pão. “Yuna… Meu nome é Yuna.”

“Giff.”

“Giff? Não parece um nome local.” Yuna o mediu de cima abaixo. “Você não parece um rebelde. Achei que só sangue-puros eram aceitos no exército.”

Ele riu, olhando suas próprias roupas. Couro e pano negros como a noite. Nenhum metal visível, nenhuma insígnia.

“Eu pareço ser do exército?”

“Você não parece ser da milícia. Eles não parecem organizados o suficiente pra ter alguém como você. Mas… por quê? Por que seguir o sultão? Quer dizer, o governo trata vocês pouco melhor do que nós–”

“E como você saberia disso?” ele interrompeu, “Me diga, como você sabe sobre o modo como o sultão rege o seu povo? O que, exatamente, uma mendiga aprende sobre política vagando pelas ruas?”

O silêncio caiu sobre os dois. Após alguns instantes, Giff se levantou.

“Eu preciso ir. Pode ficar com o resto do pão.”

“Não, me desculpa, eu não quis ser rude…” Yuna estendeu o braço e segurou a mão dele na dela.

Giff nunca saberia dizer se foi a proximidade com o assassinato do vizir, ou o fato de que ela parecia genuinamente arrependida, ou se ele só estava há muito tempo sem uma mulher. Talvez fosse tudo ao mesmo tempo. Mas naquela noite, seus superiores poderiam esperar até o amanhecer pelos resultados da missão.

Ele acordou com o nascer do sol, os braços de Yuna o envolvendo debaixo do cobertor. O abraço não era muito firme, e ele conseguiu escapar sem acordá-la. A volta ao palácio foi longa, enquanto ele tentava se convencer de que ele não tinha feito nada de errado.

Alguns dias depois, ele estava caminhando pelas ruas da cidade, quando encontrou uma velha conhecida. Bea, uma antiga guerreira de sua unidade, o reconheceu instantaneamente e o entusiasmo dela ao revê-lo fez todos os problemas sumirem por um instante. Os dois relembraram os bons velhos tempos, e Giff concordou em em continuar a conversa em uma taverna próxima.

Era um lugar pequeno e escondido, que ele nunca tinha visto antes. Ele esperava encontrar um lugar decadente, sujo e barato. Ele certamente não esperava encontrar Nobast, um oficial desertor, cercado por rebeldes. Porém, ele esperava menos ainda ver Yuna.

Em instantes, as facas de Giff estavam sacadas e prontas para cortar gargantas. Mas, ao seu redor, espadas e machados surgiram.

“Ei, ei, calma pessoal,” sorriu Nobast, “nós estamos aqui só pra conversar. Por que não guardamos as armas?”

Relutantemente, Giff embainhou suas facas e as lâminas ao seu redor abaixaram em resposta. Se seus olhos fossem armas, eles teriam matado Bea nesse instante. Ela estava em pé ao lado de Nobast, olhando para suas botas como um cão que roubou um pedaço de carne.

“Eu esperava mais de você, Bea.”

As palavras despertaram algo nela, porque agora era ela que o atacava com os olhos. Suas palavras pareciam quase cuspidas como uma série de xingamentos.

“E o que exatamente você esperava? Eles estavam matando a gente, Giff! A gente sobreviveu aquele tempo todo por sua causa, mas quando você saiu, era só uma questão de tempo. Eu implorei para os outros virem comigo. Alguns ouviram. Todos os outros estão mortos!”

Nobast colocou uma mão sob o ombro dela.

“O ponto é, Giff,” ele retomou, “Saharaf está em péssimas condições. Eu acho que no fundo você sabe que ter voltado vivo do assassinato de Harkut é algo que nem seus superiores esperavam.”

Giff pensou em perguntar como ele sabia da missão, mas ele não achava que Nobast iria responder. E não era tão difícil acreditar que um ex-oficial mantivesse contatos no exército.

“Eu sou um recurso do sultão, para ser usado conforme necessário.”

“Hmm… mas esse tipo de recurso não é mais usado em nenhum outro ramo. Os fazendeiros, os mineradores, todos agora são livres. Todos menos você e algumas outras relíquias do regime. Todos posses do sultão, curiosamente.”

“O povo tem medo de nós. Se o sultão nos soltasse… Bem, o povo teria problemas com isso.”

“Ah sim. Rannish tem muita preocupação com o que seus súditos pensam, não é mesmo? É por isso que eles estão morrendo de fome nas ruas. Por isso que ele nos manda matar manifestantes desarmados.” Nobast deu dois passos à frente e ficou diretamente à frente do assassino “Me diga Giff, se você consegue ver até quando uma elfa precisa de ajuda, por que você não consegue ver quando seu próprio povo precisa?”

Yuna estava muito concentrada em seus dedos para retornar o olhar que o assassino lhe lançou. Ele a encarou por algum tempo, não sabendo o que dizer.

“Nossos povos estão morrendo.” Ela disse, finalmente retornando seu olhar. “Uma revolução aqui poderia fazer Sahafar se afastar da guerra. Nós estamos perdendo homens no fronte também.”

“Você tem um bom coração, Giff.” Nobast continuou. “Ninguém aqui quer derramar mais sangue. Mas para isso, Rannish precisa sair. Você sabe que isso é o melhor, pra todo mundo.”

Giff não conseguiu conter sua risada.

“Você espera tirar Rannish do trono sem mais sangue? Como?”

“Eu precisaria da sua ajuda para isso. Alguém com acesso ao sultão e que pudesse levar uma pequena unidade e capturá-lo. Com sorte conseguimos forçá-lo a renunciar.” Ele fez uma pausa, como que para deixar Giff processar a informação. “Mas não se engane, eu não tenho medo da alternativa sangrenta, se eu não tiver outra.”

Giff ficou em silêncio. As palavras de Nobast e Yuna eram verdade. Ele sentia sua lealdade escorrendo em suas mãos. Ela já estava fluindo de muitas feridas antigas. Mas o golpe final foram as palavras que ele disse em seguida.

“Do que vocês precisam?”

Giff abriu a porta no fim do corredor. Nuvens cobriam parte do céu e a lua não estava visível. Ele amarrou duas cordas em seteiras e jogou-as para fora da muralha enquanto sinalizava para as tropas. Nobast e seus homens escalaram até o topo mais rápido do que ele esperava. Dos oito, seis eram soldados sahafarianos, com dois elfos entre eles. Giff pensou em contestar a escolha de tropas, mas decidiu que era tarde demais para ter dúvidas.

Voltando pela porta, eles andaram pelo corredor, buscando as escadas para o andar de cima. Aquela fortaleza era bem diferente dos palácios de Sahafar, mas eles tinham estudado o mapa, e estavam navegando com sucesso aquelas passagens. Ela era bem menor também.
O sultão estava  a caminho de Sahafar, devido a notícias da morte de Harkut e a revolução ficando fora de controle. A fortaleza era pequena e tinha sido abandonada há tempos, e na manhã seguinte a caravana de Rannish retomaria a estrada.

Os vigias que eles encontraram no caminho foram eliminados com bestas antes que pudessem soar o alarme. Quando eles finalmente chegaram à porta do quarto do sultão, havia vozes discutindo do outro lado.

“Como assim você não sabe o que aconteceu com o anel?”

“Pete, se acalma, a gente tem como encontrar ele.”

“Tudo bem, Byrne, a gente encontra ele.” respondeu Pete. “Mas porque a gente não foi notificado quando um dos nossos foi assassinado? Especialmente com o possível roubo do anel?”

“Eu não sei, eu não estava presente,” disse a voz do sultão. “Mas faz muito tempo que Harkut tratava com vocês diretamente. Ele não falava muito da sua ordem, talvez as pessoas tenham se esquecido.”

“Se esquecido? Como–”

A fala de Pete foi interrompida pelos rebeldes escancarando a porta com armas em mão. O sultão mal teve tempo de esboçar uma reação. Os outros dois homens, no entanto, foram bem mais rápidos. Por um instante Giff achou que um deles, Pete, tinha puxado uma tocha acesa de algum lugar, até perceber que ele estava segurando uma espada com labaredas dançando pela lâmina. As chamas subiram pelo cabo e envolveram sua mão, escalando seu braço. Logo elas se espalharam por todo seu corpo, cobrindo-o como uma armadura. Fogo e carne se mesclaram, partes de seu corpo sendo substituídas por grandes labaredas crepitantes.

Os rebeldes tentaram lutar, mas o guerreiro ígneo era extremamente hábil e em pouco tempo eles tinham recuado para o corredor. As chamas correram para o lado de fora, evitando o quarto do sultão. Giff avançou com armas em mão, mas o calor o atingiu como uma parede, forçando-o a recuar e quase cair de costas. Virotes rasgaram o ar ao seu lado. Por um instante hastes de madeira se alojaram sob as chamas. Em instantes elas se desfizeram em fumaça, sem nenhum efeito em Pete.

No meio desse caos, ninguém reparou quando o outro homem, Byrne, sacou uma caveira de pássaro do bolso.

Um dos elfos passou ao seu lado, ignorando o calor sufocante. Um círculo feito de linhas de luz branca flutuando no ar seguia sua mão e repelia as labaredas próximas. Usando a espada na sua outra mão, ele bloqueou um corte de Pete. O som das lâminas se chocando ressoou em diversas notas, como se tivesse sido ouvido através de um corpo de água.

Um sopro de ar fresco seguiu essa aparada. O alívio durou apenas um instante, no entanto, e o calor voltou com chamas maiores e mais brilhantes. Pete estendeu a mão e uma chama saltou como um jato sobre seu agressor, que foi forçado a recuar um passo. O círculo de luz cresceu e brilhou mais forte, enquanto as chamas se dissipavam nele.

No quarto atrás deles, Giff viu uma névoa negra surgir da base do crânio na mão de Byrne e se cristalizar na forma de um cajado. Ele tentou contornar a luta, mas as chamas impediam qualquer passagem.

Outros rebeldes engajaram a figura ígnea em combate, mas foram abatidos por golpes de sua espada ou queimados pelas chamas que o cercavam. Junto deles, o segundo elfo avançou com sua espada. Pete defletiu o golpe, produzindo o mesmo som ressonante de antes. As labaredas tremularam e enfraqueceram, e o primeiro elfo deu um passo à frente, sua lâmina dançando e se chocando diversas vezes com a arma de Pete. Com cada golpe o calor ao redor ficava menos opressivo e as chamas pareciam brilhar menos. A espada do elfo, por outro lado, adquiriu um tom incandescente após alguns golpes.

Byrne agora estava sendo envolto em escuridão, formando um elmo em forma de uma cabeça de pássaro e um par de asas negras em suas costas. Gavinhas de fumaça se espalharam e atacaram a todos ao redor em uma cacofonia de muitas dezenas de vozes gritando ao mesmo tempo. A névoa rasgou carne em revoadas de sangue, e pânico se instaurou.

Giff tentou se defender, suas lâminas cortando algo semi-sólido sempre que atingia as névoas, mas os ataques continuavam. O segundo elfo correu para o quarto, mas era tarde demais. Ele estava com uma espada em mãos e ele tentou passar pela porta, cortando as gavinhas negras com um certo grau de sucesso, evidenciado por sons mais estridentes com cada golpe.

A fumaça serpenteou ao redor de Pete, retalhando seu atacante. Um golpe de sua espada flamejante fez o elfo cair ao chão. O guerreiro de fogo se virou para enfrentar o outro, mas ele já tinha entrado no recinto. Byrne bloqueou o primeiro golpe, mas não conseguiu impedir a estocada do elfo em seu peito. Suas asas e seu elmo se desfizeram em névoa, revelando seu olhar incrédulo. A haste do cajado também se dissipou, e o crânio de pássaro rolou pelo chão. A lâmina parecia enegrecer, como que absorvendo aquelas forças, e pequenas rachaduras se abriram no metal escuro.

Com um grito de fúria, Pete avançou contra o atacante, um arco de fogo branco foi lançado pela espada. O projétil atingiu o elfo tão rápido que Giff não teria visto se não fosse a explosão amarelada que incinerou o alvo e seus arredores. Atordoado, ele só conseguiu olhar de novo quando Pete já tinha retirado a espada no peito de seu amigo. Ele viu que a ponta estava quebrada, um fragmento provavelmente ainda alojado na ferida.

Sua atenção se voltou para gritos de seus companheiros ao seu lado. Durante a confusão, o sultão conseguiu sair do quarto, e estava fugindo pelo corredor. Os rebeldes correram atrás dele, e a perseguição não durou até a primeira curva da passagem. Ao voltarem para o quarto, encontraram o local queimado, cortado e com uma mancha de sangue no centro, mas os dois homens tinham desaparecido.

Giff viu o sultão sendo amarrado pelos rebeldes, e um grande alívio percorreu seu corpo. Ainda havia sons de luta do lado de fora, mas a cada instante novas vozes rebeldes indicavam que a base estava sob seu controle. Os dois guerreiros misteriosos não eram mais seu problema. A batalha com o vizir tinha sido pior do que aquilo, mas não por muito, e ele não tinha a menor intenção de perseguí-los.

Discretamente ele se separou do grupo, tentando sair sem ser notado. Antes que ele pudesse chegar muito longe ele ouviu a voz de Nobast.

“Você está indo para algum lugar?”

Giff parou sem se virar para encará-lo. Era uma excelente pergunta. Ele ainda era oficialmente posse do sultão, mas certamente estaria desempregado no final de tudo isso. Ou morto. Para todos os efeitos, ele não era mais um escravo.

“As coisas ainda não acabaram,” comentou Nobast. “A gente poderia usar alguém como você.”

“Eu achei que você tinha dito que não queria derramar mais sangue.”

“Eu quero derramar o mínimo de sangue possível. Para isso, você seria bem mais útil do que dúzias de soldados.”

Giff respirou fundo. “Eu preciso pensar sobre isso. Sobre tudo, na verdade.”

Ele andou até o fim do corredor, abriu a porta e olhou para as areias no horizonte. As nuvens tinham passado, e Giff viu seu primeiro luar como um homem livre.

Nota: Título baseado na história ‘Dissident‘ escrita por Giuliana Mendonça.

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