Sorria, Você Está Sendo Avaliado!

Amanda respirou fundo, olhou no espelho pelo menos mais quatro vezes antes de sair de casa. Cabelo, sorriso, roupas. Tudo dizia que ela era uma pessoa simpática. Com uma última olhada, ela ajeitou sua franja ruiva
e disse a si mesma “Você consegue, vai dar tudo certo”.

Sua casa, ficava nos pequenos condomínios, As torres de pérola. Um pequeno conjunto de prédios branco leite na asa sul em Brasília. Um pouco preocupada, ela levantou o pulso esquerdo e olhou seu pequeno relógio rosado.

A luz ainda era azul. Ufa.

Era hora do seu primeiro desafio do dia. Sobreviver ao caótico trânsito da cidade e ao mesmo tempo, manter sua luz, azul. Ela desceu o elevador e deu o seu bom dia mais energético e simpático possível. Andou calmamente até o estacionamento. Respirou fundo mais uma vez. E ligou seu carro. Deu ré, avançou pelos andares,
mas para o seu azar, na saída, quase bateu com um carro. Ela acabou se distraindo com uma notificação
em seu celular. Seus olhos cruzaram os de outro homem. Tarde demais, ele já estava tocando em seu relógio.

De Azul claro, passou para um verde musgo brilhante.

Ainda não era tão ruim assim. Verde ainda estava bem. Ela colocou a cabeça pra fora do carro e pediu desculpas. Mas o homem não deu atenção. Um pouco mais tarde e sem mais problemas, ela chegou ao
seu escritório. Sentou em sua pequena mesinha na recepção do Dr. Rafael. Anotou os telefonemas, remarcou
as consultas, repassou as ligações. Tudo sempre com extrema calma e polidez.

Verde-Agua!

Então… ela chegou. Por deus, como ela odiava aquela mulher, seu sangue começava a ferver apenas de
olhar em seus olhos. Aquele ar de falsa, seu sorriso era visivelmente irônico. Mas sua pulseira sempre brilhava em um branco amarelado reluzente. Que inveja. Para completar, ela era esposa do Doutor, o que por tabela
fazia dela, sua chefe. Seus olhos mal se cruzaram, e Vanessa soltou um audível estalido de desaprovação.

-Bom dia Querida – E tocou no seu relógio – Sua blusa está amassada, infelizmente não posso permitir que
isso passe, já é a quarta vez apenas essa semana.

-Desculpe Sra. Vanessa, realmente não foi minha intenção… O Doutor Disse que queria falar com a senhora.
Ele está a aguardando.

-Tsc, é DOUTORA Vanessa… realmente deveríamos contratar uma nova pessoa mas olhe, não vou diminuir
a sua pontuação, porque somos amigas não é? Agora vai arrumar sua blusa, depois volte pra sua mesa.

Com o sangue borbulhando, sua vontade era de socar os dentes perfeitos daquela piranha. Mas tudo que
ela pode fazer, foi dar um sorriso sonso e sair correndo para a cozinha.

Ela adoraria deixar ela no vermelho, mas ela sabia que sua votação não iria nem mudar a cor dela.
Além do mais, sua avaliação valia a metade do normal.

– Injustiça, INJUSTIÇA EU DIGO… – E abriu a porta da cozinha – Ah… desculpe Tatiane, não te vi aqui… Escute você quer ajuda com essa bandeja?

– Não senhora, imagina, pode deixar, só vou guardar aqui e já te dou atenção. Ung! Peso do cão! – E fechou a porta do armarinho – Pronto senhora, o que é uma injustiça? Foi aquelazinha né?

– Posso me sentar aqui? – E puxou uma banquetinha – Foi sim, sabe, todo dia ela vem e me avalia mal, sempre é alguma coisa. Fios de cabelo, Unhas de cores “gritantes”, Camisa muito transparente, sapatos de salto de mau gosto. Sempre tem algo.

– Acho que o Rafael precisa melhorar o serviço lá, se é que me entende. Mulher mal amada, você não acredita, outro dia mesmo ela quase me deixou no vermelho. Imagine eu, que trabalho aqui a mais tempo que ela, faço de tudo pro doutor, e logo ela, quer me deixar no vermelho.

A porta abriu e as duas ficaram mudas olhando, Diego entrou tomando seu café e olhou para as duas, ainda caladas. Ele as analisou e deu uma risada baixinha.

– De quem as duas estavam fofocando? Me conta vai, também quero fofocar! Chega pra lá Amanda,
sua bunda não é tão grande assim pra essa banquetinha meu amor.

– Quem você acha Diego? Só uma chance…

– Mentira, a Doutora Silicone? – E tomou mais um gole – Tá pra nascer mais falsa que ela…

– Pois é… Mas não tem o que fazer né… o sistema é assim. Tudo que podemos fazer é sorrir,
Diego me da sua xícara pra eu lavar.

– Pois é… – Disseram os dois meio desanimados.

Amanda estava saindo da cozinha, depois de mais algumas fofocas, com a sua blusa recém passada,
quando seu relógio vibrou. Seu coração deu um salto.

Laranja.

Ela levantou os olhos do seu pulso. E encontrou os dela. A quanto tempo ela estava ali?

Algo de vidro tinha se espatifado na cozinha. Aparentemente ela não foi a única a ser avaliada.
Vanessa havia ouvido tudo. E obviamente não gostou nenhum pouco. Aquela cobra começou a falar, algo que ela já não estava mais prestando atenção. Sua mente estava rodando, pensando em todas as coisas que não poderia mais fazer por ser laranja.

O sistema, utilizado a pouco tempo, avaliava as pessoas pelas cores. Sendo laranja a segunda pior, perdendo apenas para vermelho. Como um sistema de pontuação, ela era tão bem vista quanto um fugitivo ou um ladrão. Ela seguiu andando pelo corredor, ainda meio zonza. Passou pela Vanessa, que ainda estava falando e falando. Mas ela não estava mais interessada. Afinal, ela era laranja.

Foi quando ela sentiu uma mão gelada tocar em seu ombro. E seus olhos encontraram os dela.
A doutora perfeita. Ela parecia que iria estourar, quando mais ela falava, mais vermelha ela ficava.
Amanda jurava que se ela não estivesse tão confusa em seus pensamentos, iria até rir da situação.
Foi quando a doutora, bastante irritada em não ter a devida atenção, deu um tapa nela.

Aquilo foi como um estalar de dedos. Sua mente voltou ao lugar. Apesar do seu rosto estar ardendo, ela calmamente levantou o pulso, selecionou nos menus.

Agressão, Violência física injustificada. E apontou para ela e tocou no meio da tela.

Silencio.

De Branco, como um flash, passou por todas as cores,
até parar no laranja escuro.

Com um sorriso, Amanda disse:

– Sorria Doutora, Você está sendo avaliada.

-/-

Mais tarde naquele mesmo dia, ela estava voltando para sua casa, e ela começou a observar as pessoas com mais atenção. Perdidas em suas cores, suas avaliações superficiais.

Então ela olhou o seu relógio, uma enorme bola vermelha com uma exclamação. Com toda certeza ela já não poderia ter a sua vida perfeita de boneca de porcelana.

– He… mas que merda… – E olhou mais uma vez – Acho que não preciso mais disso

E destravou a fivela e olhou uma última vez, antes de joga-lo na calçada. Algumas pessoas em volta ficaram espantadas, aquilo era um crime. Todos as pessoas tinham que ser avaliadas. Um homem se aproximou, um pouco espantado, pegou do chão e esticou a ela.

– Moça…? Aqui…acho que você deixou cair…

– Hmm? Ah sim obrigado! – Olhando para ele, ela jogou o relógio no meio da rua.

Ela deu as costas e continuou andando. Ela se sentia livre. Sem a necessidade de ser quem não era. Ela poderia até mesmo parar de sorrir igual idiota para completos desconhecidos. Quem sabe até ser sincera. Até mesmo ser sincera demais.

Então entrou em um boteco de esquina. Soltou seus cabelos, pediu uma cerveja e finalmente relaxou.

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